A linha de trólebus 408A/10, conhecida como Machadão, encerra 76 anos de operação em São Paulo. Iniciada em 1949, seus veículos vermelhos elétricos ligavam Aclimação a Perdizes. Contudo, ônibus verdes a bateria assumem o percurso, marcando o fim de uma era no transporte paulistano.
O Trajeto Histórico e a Despedida
O Machadão inicia na rua Machado de Assis, na Aclimação, e termina na rua Cardoso de Almeida, em Perdizes. Ao longo do caminho, o trajeto margeia referências históricas e pontos turísticos, cruzando Higienópolis e passando por importantes vias como São Luís e a praça João Mendes, além do bairro da Liberdade.
Moradores de Perdizes, ligados afetivamente aos trólebus, expressaram surpresa e decepção. Por exemplo, Sílvio Larocca de Paiva Júnior, engenheiro e usuário diário, espantou-se: “Sabíamos que aconteceria, mas ao ver os novos, decepcionei-me. São 30 anos no mesmo vermelho.” Ele, então, defende manter a fiação e ter ambos os ônibus.
Uma arquiteta de 70 anos no bairro, anônima, inconformou-se. Ela, de fato, questionou a aposentadoria de um sistema sustentável e eficiente. A arquiteta relembrou a tradição familiar de uso do Machadão, incluindo a história de amor de seu irmão e cunhada, que se conheceram ali.
Perspectivas Divergentes e Preservação
Nem todos lamentam a mudança. Ao contrário, a antropóloga Paula Janovitch minimiza a importância do veículo, destacando a relevância da linha: “Trólebus ou bateria, isso importa menos. Não sei se o novo é ruim, nem que o antigo é maravilhoso.”
Em contrapartida, Márcia Cunha, arquiteta e líder da Amora (Associação dos Moradores e Amigos de Perdizes), considera a eliminação dos trólebus lamentável. “Eles são parte da tradição do bairro; perdemos muito ao eliminar patrimônios históricos”, afirma. Por isso, ela defende o tombamento da linha e a preservação do percurso. Diante disso, a Amora lançará, em 30 de agosto, o movimento Preserva Perdizes, abordando, possivelmente, a linha 408A/10.
A Posição da SPTrans e da Concessionária
A SPTrans informou que a Ambiental Transportes, concessionária da operação, possui autonomia para ajustar a frota em busca de ganhos para o sistema. Dessa forma, mesmo que a linha estivesse programada para trólebus, a Ambiental pode usar outro veículo, contanto que a capacidade de passageiros seja mantida. Atualmente, São Paulo possui 201 trólebus, com a maioria operada por essa concessionária.
A Ambiental formalizou o pedido, já publicado no Diário Oficial, para que a 408A/10 opere exclusivamente com ônibus elétricos a bateria, buscando melhorar o desempenho operacional. A SPTrans, por sua vez, avaliará o pedido para verificar se a mudança oferece melhora ao passageiro. Vale ressaltar que os novos ônibus a bateria contam com ar-condicionado, Wi-Fi e tomadas USB.
Debate sobre o Futuro do Transporte Limpo
Um seminário recente no Seesp (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo) sobre trólebus revelou que a maioria dos participantes defende sua permanência. De acordo com Arnd Batzner, especialista em mobilidade pela UITP (União Internacional de Transportes Públicos), estruturas já instaladas para veículos não poluentes não deveriam ser descartadas, visto que permitem uma evolução mais rápida para o transporte limpo.
Em suma, defensores dos trólebus enfatizam a importância de preservar elementos da paisagem urbana e uma experiência de transporte que remete à tradição. Para eles, os trólebus são um bem cultural dos bairros da Aclimação e de Perdizes, observados e usados pela população há décadas. Assim, eles são parte integrante da história local.
Informações: Folha de S.Paulo / Foto: reprodução
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